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| Александр Македонский - Pexels. |
Continuando a discussão acerca da Análise Automática do Discurso, publicação de Michel Pêcheux de 1969, esta segunda parte do texto entra de fato na obra, após suas bases serem lançadas em dois artigos de Thomas Herbert, pseudônimo de Pêcheux, conforme visto anteriormente.
A AAD-69
O
livro de Pêcheux de 1969 é um texto fundador de uma área de
conhecimento em expansão até hoje. Na época, era uma proposta ousada: a
de fazer com que algoritmos realizassem uma leitura não-subjetiva de
discursos (não entendido como uma fala de autoridade, mas sim como efeito de sentido).
Hoje parece banal falar em computação e algoritmos, mas o que
havia dessa tecnologia no final dos anos 1960? Existiam computadores, mas
eles só foram se popularizar décadas mais tarde, muito em parte por
decorrência do Apple II, de 1977. Pêcheux parecia, com isso, alguém à
frente de seu tempo. E com diversas influências: da política, da
filosofia, da linguística, da computação, da psicanálise.
Afinal, o que havia até então era uma tradição de estudos de textos fechados em si mesmos, sem contar aspectos exteriores a suas condições de produção. Muito em parte pela preponderância do pensamento estruturalista e pela herança de estudos da ordem da gramática e da filologia. Mas a psicanálise abriu uma fenda irreversível: dentro do consciente existe um outro, um inconsciente. Algo que fala, que nos atravessa. Que se manifesta pela linguagem, conforme formulou Jacques Lacan também nesse período.
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| O inconsciente se estrutura em linguagem. Foto: Magda Ehlers. |
É uma abertura que até então era desconsiderada pelos estudos de linguagem -- ainda que tal aceno à psicanálise será melhor desenvolvido por Pêcheux em sua obra seguinte, Semântica e Discurso, de 1975. Neste primeiro momento, na AAD-69, aqui e ali podem ser recuperados elementos que se desenvolverão no futuro. No entanto, na obra em questão, a preocupação era a de articular a ideologia como modo de significar e fazer um maquinário que desse conta de articular automaticamente uma análise.
Sim, até o final de sua vida, Pêcheux abandonou a ideia de realizar uma análise automática de discursos, e isso ocorreu na década de 1980. O que em nada tira o mérito de sua obra fundadora, pois é a partir dela que outras ideias acerca da linguagem e da produção de sentidos vão se desenvolver.
O projeto da AAD-69, como cita Maldidier (2017, p. 19) é um esboço. É um laboratório de o que estaria por vir, com ingenuidades e ambiguidades. E também:
"Em tal contexto, ainda preso a questões funcionalistas, descritivas e formalistas, ele pensa poder utilizar mecanismos, em parte, automáticos para depreender elementos discursivos e estruturais em suas análises" (SANTOS, 2018, p.217)
Os
aspectos formal e descritivo são características evidentes ao
folhear qualquer edição da AAD, como pode ser visto no seguinte exemplo:
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| Análise Automática do Discurso, 2019, p.141. |
Bom, imagine qualquer estudante de letras ou linguística pegando esse livro, que é tão fundamental, tão citado por inúmeros autores estudiosos do discurso e se deparar com sequências de logaritmos. Isso reitera o primeiro susto, conforme o post anterior, de que estudar AD é difícil. A questão de automatização foi de interesse de Pêcheux nessa sua primeira publicação e desaparece nos livros seguintes. Com o tempo, nos anos 1970, o autor rebate críticas a seu projeto, como visto nos capítulos IV, V, e VII de Por Uma Análise Automática do Discurso, até finalmente abandonar a ideia.
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| Análise de Discurso, 2005, Pontes. |
Mesmo
assim, a AAD-69 deve ser lida por estudantes do discurso pelo seu
caráter fundador e também por sua extensa quantidade de citações que seriam resgatadas dali em diante, bem como para acompanhar a evolução dos
conceitos que envolvem nos estudos do discurso. Talvez alguém pense que se possa iniciar a leitura de Pêcheux pela obra de 1975 (Semântica e Discurso), que é considerada pelo próprio
autor como seu livro mais importante. Ou ainda, começar com Análise de Discurso: Princípios e Procedimentos,
de Eni Orlandi, que tem a proposta de ser um livro introdutório da
área. Entretanto, quanto mais resumido se tenta ser, pode ser mais
difícil de se entender. E, no final das contas, é sempre importante
resgatar as fontes de nossos campos de pesquisa.
A importância da AAD se dá no seu aspecto de conter muitas sementes que só vão germinar no futuro (lembre-se que Pêcheux, em 1969, tinha apenas 31 anos de idade). Por exemplo, o conceito de interdiscurso é trazido entre as páginas 33 e 34 da edição de 2019 -- mas ainda sem a denominação deste conceito. É trazido o que interdiscurso significa, mas não se tem a palavra "interdiscurso" que a defina. Assim:
"Se prosseguirmos com a análise do discurso político -- que serve aqui apenas de representante exemplar de diversos tipos de processos discursivos -- veremos que, por outro lado, ele deve ser remetido às relações de sentido nas quais é produzido: assim, tal discurso remete a outro, frente ao qual é uma reposta direta ou indireta, ou do qual ele 'orquestra' os termos principais ou anula os argumentos. Em outros termos, o processo discursivo não tem, de direito, início: o discurso se conjuga sempre sobre um discurso prévio, ao qual ele atribui o papel de matéria-prima, e o orador sabe que quando evoca tal acontecimento, que já foi objeto de discurso, ressuscita no espírito dos ouvintes o discurso no qual este acontecimento era alegado, com as 'deformações' que a situação presente introduz e da qual pode tirar partido" (PÊCHEUX, 2019, pp. 33-34, grifos do autor).
Curiosamente, no trecho acima, também é semeado o conceito de acontecimento, que só viria a se definir na última obra do autor, Discurso: Estrutura ou Acontecimento, de 1983. Acontecimento entendido como o encontro de uma memória com uma atualidade (PÊCHEUX, 2012, p.17). E interdiscurso entendido como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente, que faz com que se tenha a impressão de ser origem de um dizer, mas ele já está dito, pensado, em circulação (ORLANDI, 2010, p.31). Mas isso é atropelar um pouco a ordem das coisas. O que fica é o aspecto de continuidade no pensamento teórico do autor, e que é muito interessante ver tal evolução dos conceitos.
Na primeira parte do livro encontram-se tantas outras definições de interesse para a AD, tais como Condições de Produção, o conceito de Discurso, Formação Imaginária, Efeito Metafórico, Deslize, Ancoragem.
O que se tem, afinal, são tateamentos teóricos de um autor constituindo
seu campo de saber, muito apegado a questões de formalizações e de
descrições. E isso se deu a partir da crítica ao estruturalismo -- e,
inclusive, ao gerativismo de Noam Chomsky, cujo pensamento estava em
ascensão nos Estados Unidos, com sua ideia de descrição linguística a
partir de um falante ideal (ainda que Pêcheux resgate, como forma de
metáfora, os conceitos de estrutura de superfície e estrutura profunda
para designar níveis de análise. Tais conceitos são de origem
gerativa).
Então,
ao olhar para fora do texto, Pêcheux coloca questões como o lugar da
história na produção dos sentidos (pela via do materialismo histórico de
Althusser) e que os sujeitos não detêm a origem do seu dizer (pela via
da psicanálise), pois os sentidos já foram realizados em outro lugar
(noção de interdiscurso). Porém, o autor nesse momento ainda não
considera a língua como um lugar em que a falha/equívoco são
constituintes, tal noção só será desenvolvida no futuro. Mas as bases
estão lançadas. E o que havia até então de trabalho linguístico
considerava a língua como estrutura, sem falhas, passível de ser
estudada por conta de tais regularidades.
"Ah, mas e a Eni Orlandi??"
Conforme diz a autora em entrevista (ORLANDI, 2019, p.35), ela topou com a AAD-69 na França no mesmo ano de lançamento. O que foi uma grata surpresa, afinal, a obra trouxe questionamentos para Eni que ela até então não encontrava lugar na linguística que se praticava à época. O que não quer dizer que seja algo simples, afinal, como se vê ao longo da postagem, em 1969 a AD era algo ainda muito no início e que demandaria desenvolvimento e tateamentos teóricos. Pêcheux fez isso na França, Eni Orlandi fez isso no Brasil. Ainda, a entrevista resgata o encontro de Eni com Pêcheux no Brasil em 1983, única vez em que estiveram juntos. Esse texto da entrevista tem quase 100 páginas e é muito interessante, vale demais a pena. Está no livro Encontros na Análise de Discurso, da Editora Unicamp.
Considerações Finais
Pêcheux
insere seu cavalo de Tróia ao desconsiderar essa visão de texto
encerrada em si, mesmo que isso venha a causar um dos principais efeitos
em análise de discurso: a área se presta mais a levantar questões do
que a dar respostas fechadas. E isso não é demérito, pelo contrário. O
trabalho do analista se dá em fazer uma reconstrução a partir do
dispositivo teórico e analítico da AD para então resgatar como os
sentidos se dão. AD é a arte de fazer boas perguntas ao seu objeto de
análise. E isso se dá na sustentação em alicerces histórico e sociais. Daí a metáfora de que Pêcheux é o homem dos andaimes, pois, ao se pensar os discursos, é impossível que não se leve em conta essa ideia de sustentação na materalidade histórica em que se produzem.
Guia de Leitura
Ao fazer esse texto, que foi publicado em duas partes, pensei em uma melhor maneira de se ler a respeito da origem dos estudos do discurso. De modo semelhante àquele em que os fãs de Star Wars fizeram uma sequência ideal para assistir às trilogias (na ordem: episódios IV, V, II, III, VI. Não, não precisa ver o episódio I).
Fica assim:
1) Thomas Herbert: Reflexões sobre a situação teórica das ciências sociais e, especialmente, da psicologia social.
2) Thomas Herbert: Observações para uma teoria geral das ideologias.
3) Paul Henry: Os fundamentos teóticos da "análise automática do discurso" de Michel Pêcheux.
4) Michel Pêcheux: Análise Automática do Discurso.
5) O restante dos artigos de Por Uma Análise Automática do Discurso, ou seja, os capítulos II, IV, V, VI e VII. O caítulo III dessa obra é a publicação incompleta de Análise Automática do Discurso.
6) O livro Estudos do Discurso: Perspectivas Teóricas, mais precisamente os capítulos Gramsci, Althusser, Lacan, Foucault e Pêcheux.
7) O livro A Inquietação do Discurso: (re)ler Michel Pêxheux Hoje, que é um apanhado biográfico, ainda que muito breve, do caminho pelo qual passou Michel Pêcheux. A obra serve como ponte para a obra seguinte do autor, Semântica e Discurso.
Penso que, dessa maneira, exista uma ordem cronológica de leituras e de descobrimentos, o que possibilitaria uma maior facilidade na hora de fazer assimilações entre ideias -- tem-se a possibilidade de chegar às fontes ao invés de pegar o bonde andando.
Referências Bibliográficas
GADET, Françoise; HAK, Tony. Por Uma Análise Automática do Discurso. 4. ed. Campinas: Editora Unicamp, 2010
HENRY, Paul. Os fundamentos teóticos da "análise automática do discurso" de Michel Pêcheux. In: GADET, Françoise; HAK, Tony. Por Uma Análise Automática do Discurso. 4. ed. Campinas: Editora Unicamp, 2010. Cap. 1. p. 11-38.
HERBERT, Thomas. Reflexões sobre a situação teórica das ciências sociais e, especialmente, da psicologia social. In: Análise do Discurso: Michel Pêcheux. Campinas: Pontes, 2011. p. 21-54.
HERBERT, Thomas. Observações para uma teoria geral das ideologias. Revista Rua. Campinas, Vol. 1, 1995. p. 63-89.
MALDIDIER, Denise. A Inquietação do Discurso: (re)ler Michel Pêcheux hoje. Campinas: Pontes, 2017.
ORLANDI, Eni. Análise de Discurso: Princípios & Procedimentos. Campinas: Pontes, 2010.
PÊCHEUX, Michel. Análise Automática do Discurso. Campinas: Pontes, 2019.
PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora Unicamp, 2014.
PÊCHEUX, Michel. Discurso: Estrutura ou Acontecimento. Campinas: Pontes, 2012.
SANTOS, Sonia Sueli Berti. Pêcheux. In: Estudos do Discurso: Perspectivas Teóricas. São Paulo: Parábola Editorial, 2013.





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