quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Análises e Discursos: múltiplas abordagens

Steve Johnson, via Pexels

Então você se interessou por Análise de Discurso (daqui em diante chamada de AD). Ou se viu obrigado a entender, por ser estudante de Letras ou Linguística. Ou, ainda, é apenas uma pessoa curiosa de outra área. Tanto faz se você nunca ouviu falar a respeito, se já conhece algo ou se já é experiente no ramo. Este post tem como finalidade trazer alguns apontamentos sobre a área de estudos do discurso. Como é o primeiro do blog, seria interessante comentar acerca da origem da AD.

Porém, você deve ter notado pelo endereço que este não é apenas um blog de AD -- é um blog de AD materialista. Também chamado de pecheutiana ou de linha francesa. E fazer essa diferenciação é importante do ponto de vista teórico, já que diferentes ADs observam seus objetos de diferentes maneiras.

- Então tem mais de uma AD?!
- Sim...


Falar da AD de Michel Pêcheux significa que foi ele quem lançou as bases para tal área de pesquisa dentro da linguística. Mas não significa que nunca se falou de análise de discurso antes dele. E nem que não houvesse quem falasse de AD depois dele, dando outros sentidos para além do conceito original. Eis o propósito deste texto, bem como comentar muito brevemente sobre os outros ramos de estudos discursivos.



A AD antes da AD

Faraco (2003) aponta que o termo "análise de/do discurso" foi utilizado pela primeira vez pelo linguista americano Zellig Harris em 1952. Note-se que a publicação da tese de Pêcheux em que este autor traça os fundamentos de uma Análise Automática do Discurso é de 1969.


Por Uma Análise Automática do Discurso,
2014, Unicamp.
Análise Autmática
do Discurso (AAD-69),
2019, Pontes.


(Daí que a obra é conhecida como AAD-69, sendo lançada em 2019 em sua versão integral pela Editora Pontes. Até então, o que havia era a obra Por Uma Análise Automática do Discurso, da Editora Unicamp, que consistia em uma das partes da tese de Pêcheux e de artigos de outros autores franceses do discurso). 





A AD de Harris nada tem a ver com a AD de Pêcheux. O americano sugere observar o texto a partir de formalidades da linguística em torno de um método. 


"Seu texto é, fundamentalmente, um esforço para precisar os procedimentos analíticos; para precisar o modo de estender o método da lingüística distribucional ao supra-sentencial ou ao aglomerado não arbitrário de sentenças" (FARACO, 2003, p.05).

Em outras palavras: buscava-se uma forma de compreender a distribuição de palavras num texto para que isso indicasse padrões e, com isso, sua organização. Beeem distante da proposta de Pêcheux de 1969. Porém, existem alguns aspectos dignos de observação:

1) Harris inaugura um termo, o da Análise de Discurso. Também em 1969, o artigo de Harris é publicado no periódico francês Langage (Faraco, 2003, p. 01), do qual, no futuro, Pêcheux teve publicações;
 

2) Harris propõe uma formalidade para se observar o uso da língua, das palavras. Nesse sentido, Pêcheux vai na mesma ideia ao trazer o conceito de Análise Automática do Discurso, em que planejava uma maneira de se analisar discursos via softwares. 

Porém: a) não se deve confundir discurso como uma fala de autoridade (este seria denominado discurso empírico), e sim como algo que está em curso num dizer; b) os computadores só foram se popularizar no final dos anos 70 a partir do Apple II. Era, afinal, um projeto que se mostraria bem ambicioso por parte do francês à época de sua concepção.

A AD, então, tem alguma forma embrionária no texto de Harris, cuja aplicação não vingou posteriormente. 

E então veio Pêcheux.


A AD francesa de Michel Pêcheux

A bibliografia acerca do pensamento pecheutiano é extensa e este blog pretende trazer algumas delas em posts futuros -- embora o próprio Pêcheux tenha poucos livros publicados em vida, mas muitos artigos em periódicos. 

Em 1969 é lançada a AAD-69, que nada mais é do que um fruto de sua época: a França dos anos 1960, com seus movimentos sociais e efervescência cultural e intelectual. Talvez o ponto mais importante, no momento, para entender a AD de Pêcheux é que o autor pretendia fugir da ideia que se tinha até então de, ao olhar um texto, pensar: "o que o autor quis dizer?" (PÊCHEUX, 2019, p.17). 

Esse pensamento vinha da tradição dos linguistas de olhar para o texto fechado em si mesmo, sem considerar aspectos exteriores a este. E, convenhamos, este modo de compreensão e leitura de textos é visto ainda hoje, em 2020, em escolas, universidades, na mídia, etc.

Muito tem-se a ser dito sobre a AAD-69 e seu autor, mas para não deixar o texto muito longo, resume-se a ideia no seguinte aspecto: a AD de Pêcheux é uma disciplina de entremeios (e isso é muito importante). A AD francesa buscou sustentação para se constituir em releituras de teóricos da época. 

O filósofo Louis Althusser releu Karl Marx e propôs uma teoria das ideologias, tema fundamental à AD (aliás, Pêcheux foi aluno e discípulo de Althusser). 

O psicanalista Jacques Lacan releu Sigmund Freud e, entre outras, formulou que o inconsciente é estruturado em linguagem. Pêcheux era contemporâneo de Lacan na França. 

Curso de Linguística Geral,
2012, Cultrix.
Por fim, Pêcheux releu Ferdinand de Saussure, que não apenas é pai da linguística bem como teve seu pensamento, o estruturalismo, como grande motor intelectual na primeira metade do século XX.

Dessa forma, o intuito da AD é promover deslocamentos, mudanças de terrenos: passa-se da linguística da frase para a linguística do texto. Saussure, ao delimitar o campo teórico da linguística, fez diversos cortes. Talvez o mais importante seja o da língua, de um lado, e o da fala, de outro. 

Para Saussure, a língua é passível de se estudar, por ser estrutura, por ter suas recorrências e padrões. A fala, aspecto dos sujeitos, foi deixada de lado nesse primeiro momento (em 1916, no Curso de Linguística Geral, de Saussure, do qual Pêcheux foi ávido leitor, como visto em diversas retomadas ao texto de Saussure feitas na AAD-69). Neste primeiro momento da linguística, privilegiava-se o texto encerrado, fechado. O que estaria para fora dele não era viavelmente científico de ser estudado -- e ainda hoje, dentro da linguística, há quem pense dessa maneira.

É, afinal, nesse resto de linguagem, a fala, que Pêcheux lança olhar, ao trazer para o centro da discussão o indivíduo que não é dono da origem do seu dizer, que é clivado (dividido), interpelado em ideologia -- entendida nas obras de Pêcheux como modo de significar o mundo. Por fim, o que está em discussão é o discurso, entendido como efeito de sentido entre locutores. Todo esse jogo complexo, de tantos outros conceitos que não caberiam neste texto, tomam materialidade a partir da linguagem.

A AD francesa, assim, encontra na linguística sua base material para desenvolver teorias e pesquisas acerca dos sentidos. Não se trata de contexto, nem de mensagem subliminar e nem de ler nas entrelinhas. O discurso é maior e mais consistente, ainda que seu conceito possa parecer muito abstrato num primeiro momento.

De vez em quando vejo a frase "eu sou responsável pelo que eu digo, e não pelo que você entende". A AD tem um amplo cabedal teórico para desenvolver esse "simples" enunciado (talvez, adiante, fazer um post sobre isso).

Mas e Foucault??

A Arqueologia do Saber,
2012, Forense Universitária.
Michel Foucault, em A Arqueologia do Saber, também de 1969, usa os termos discurso e formação discursiva -- este será desenvolvido por Pêcheux em 1975 em Semântica e Discurso. Porém, Foucault apenas cita os termos e, como é filósofo, diz: "mas isso fica a cargo dos linguistas desenvolverem, eles que se virem" (não com essas palavras). Na verdade, ele escreveu:
"Sei que essas definições [discurso, performance, formação discursiva], em sua maioria, não correspondem ao uso corrente: os linguistas têm o hábito de dar à palavra discurso um sentido inteiramente diferente; lógicos e 'analistas' usam de forma diferente o termo enunciado. Mas não pretendo, aqui, transferir para um domínio - que esperaria apenas essa luz - um jogo de conceitos, uma forma de análise, uma teoria, que teriam sido formados em algum outro lugar [...]. Mas gostaria de fazer aparecer uma possibilidade descritiva, esboçar o domínio ao qual ela é suscetível, definir seus limites e sua autonomia. Essa possibilidade descritiva se articula com outras, não deriva delas" (FOUCAULT, 2008, p.122, grifo meu).

De forma semelhante, no Curso, Saussure inaugura a Semiótica mas não a desenvolve, deixando margem para estudos futuros. 

Pêcheux e Foucault se aproximam teoricamente em alguns pontos e divergem em outros. Em especial no que tange à concepção de sujeito. Para Pêcheux, a questão da ideologia é central acerca de produções de significados. Já para Foucault, a ordem do discurso se dá pela existência de micropoderes. Ainda, a questão dos sujeitos é muito diferente entre Pêcheux e Foucault: no primeiro, o sujeito não tem origem em seu dizer, não é possível pensar em uma intenção. Já para Foucault, sim, o sujeito no dizer tem intenções. Para dizer de forma bem resumida. Apenas cito Foucault porque ele é, sim, trazido em discussões da AD e merece leitura atenta, em especial nas diferenças com Pêcheux para que o próprio estudante de AD não caia em contradição.



Mas e a Eni Orlandi??

Vamos retornar diversas vezes sobre as produções dela. No momento, porém, ela não entra na discussão. A Eni Orlandi foi muito importante para a consolidação da análise de discurso de linha francesa no Brasil, mas, neste momento, ainda não cabe falar sobre ela. Fica o suspense para os próximos episódios.




Outras ADs

Se você buscar por Análise de Discurso pela internet, pode se deparar com uma gama de diversos autores. Algumas obras, inclusive, sequer citam Pêcheux, ou citam muito brevemente. E se você, assim como eu, tem a mania de pesquisar termos em inglês, o que se encontra acerca de Discourse Analysis nada tem a ver com a AD francesa. Você pode encontrar nomes como Dominique Mainguenau, Patrick Charaudeau, Norman Fairclough, Teun van Dijk. São todos linguistas. São todos analistas de discurso. Mas não são da corrente materialista/pecheutiana.

E tudo bem! Não se está aqui para dizer o que é certo e o que é errado. Apenas, neste texto, trago nomes importantes que possam gerar alguma confusão. Como dito, pode-se entrar em contradição teórica ao se misturar autores de linhas diferentes.

Esta seção do texto tem como intuito citar alguns nomes para dizer que tais autores não vão retornar em posts futuros, por não fazerem parte da AD que aqui se propõe a tratar. Aliás, se se fala de uma AD de linha francesa, em contrapartida quer dizer que existem outras, em especial o que se denomina de AD anglo-saxã, também conhecida como AD americana ou Análise Crítica do Discurso (ACD). O grande nome dela é Fairclough. A proposta da ACD é a de, a partir das leituras propostas pela teoria, pensar em maneiras de intervir socialmente no mundo. Novamente, é uma ideia que destoa dos pensamentos da AD francesa, por ela não ter essa finalidade -- ainda que, se parar para pensar, compreender os modos de significar o mundo já é, em si, uma forma de intervir nele. 

Análise do Discurso, 2019, Parábola.

Para mais detalhes sobre ADC e outros ramos para além da AD francesa, consultar Análise do Discurso, de Sebastião Josué Votre, da coleção Linguística Para o Ensino Superior, volume 7, da Editora Parábola. Ressalta-se que a obra trata muito pouco da AD pecheutiana.

Estudos do Discurso, 2013, Parábola.
Outra obra interessante é Estudos do Discurso: Perspectivas Teóricas, organizado por Luciano Amaral Oliveira, também da Editora Parábola. Na obra, cada capítulo resgata um autor da AD (francesa ou não) ou ainda outros autores que influenciaram os pensadores da AD -- inclusive Althusser, Lacan, Bakhtin, Foucault. A disposição está em ordem cronológica das produções desses autores, o que torna a leitura bem linear.


Considerações finais

A AD é tida muitas vezes como de difícil compreensão. Em parte pela (má)fama que a acompanha desde os anos 1970/80 em que muito da literatura à disposição só existia no idioma francês. Em outra parte, de fato existem muitos conceitos que não são óbvios à primeira vista. Entretanto, penso que este é, afinal, um dos maiores trunfos da AD enquanto dispositivo teórico-analítico: sair da obviedade. É também, por isso, que é possível haver dificuldade no início de seu estudo, por ainda se estar no terreno que Pêcheux se propôs a mover. Sair do texto. Afinal, passamos a vida inteira reclusos nele, em sua inscrição textual, reféns do que o autor quis dizer.

De fato, este post, mesmo que aparentemente longo para os padrões da internet, deixa a desejar em muitos aspectos. Parece que não se aprofunda tanto quanto deveria. Entendo. Mas, em se tratando de uma postagem inicial, e de uma tentativa de se pensar a divulgação científica de uma área de conhecimento, o texto é válido como tal: tentativa. Tenta-se, e se vê onde chega. Espera-se que, com isso, algum entendimento incial sobre a AD francesa comece a produzir sentido naqueles que porventura passarem por essas linhas.

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