quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Análise Automática do Discurso (AAD-69) - Parte I

The Procession of the Trojan Horse in Troy - Giovanni Domenico Tiepolo (circa 1760).

O projeto da Análise Automática do Discurso (também chamada de AAD-69) foi um primeiro momento na história do percurso dos estudos discursivos. Conforme visto no post anterior, este é um blog focado na Análise de Discurso (AD) de linha francesa -- também chamada materialista --, e, sendo assim, é válido começar a discussão sobre a área desde o início, conforme será contado nesse post. Para tanto, este texto recupera uma bibliografia de interesse com o tema que será disposta conforme for citada, bem como um guia de leitura ao final da segunda parte.

Atenção: os comentários feitos nos textos citados são superficiais e têm a finalidade de resgatar apenas as ideias principais, de modo algum substituem a necessidade de leitura dos originais.

Além disso, a discussão vem a calhar, já que em 2019 a Editora Pontes publicou a AAD-69, de Michel Pêcheux, na íntegra no Brasil. Até então, o que havia era apenas parte do texto, em conjunto a outros artigos de autores franceses, no livro Por Uma Análise Automática do Discurso, organizado por Françoise Gadet e Tony Hak. Para celebrar os 50 anos da primeira publicação, pela primeira vez o público pode ter acesso à obra Análise Automática do Discurso. Como se verá adiante, uma obra não substitui a outra, elas se complementam. Mas até chegar nisso, é preciso passar por um breve período antes de 1969.



Thomas Herbert

O fundador da AD foi Pêcheux (1938-1983), no contexto da França da década de 1960. É interessante resgatar esse aspecto, afinal, a ideia que envolve tanto a AD como uma área de saber, bem como o próprio desenvolvimento de uma análise automática, reflete o momento social, político e intelectual em que vivia Pêcheux. O período, naquele país, foi marcado por grandes manifestações políticas, greves, sem contar a ascensão russa no contexto da Guerra Fria e dos pensamentos de esquerda. Também, foi uma época em que Pêcheux teve influência direta de Louis Althusser, com a sua releitura de Marx; e de Jaqcues Lacan, com a sua releitura de Freud.

A AAD-69 foi a tese de doutorado de Pêcheux. Entretanto, ela não teve início em 1969. Antes de entrar na obra em si, é de se resgatar dois textos anteriores à publicação. Pêcheux, sob o pseudônimo de Thomas Herbert, publicou dois artigos, um em 1966 e outro em 1968. A importância desse material se dá no aspecto de serem uma primeira pincelada de o que estaria por vir nos anos seguintes, não apenas na publicação de 1969 mas como em todo o desenvolvimento francês de estudos do discurso.

O primeiro texto se chama "Reflexões Sobre a Situação Teórica das Ciências Sociais e, Especialmente, da Psicologia Social" (1966). Encontra-se publicado no livro Análise de Discurso: Michel Pêcheux, com artigos selecionados por Eni Orlandi. À época deste texto, Pêcheux, então com 28 anos de idade, já se mostrava inquieto com a situação atual da sociologia e da psicologia social. 

Análise de Discurso: Michel Pêcheux,
2011, Pontes.
Neste texto, o autor já aponta as críticas que fará nos anos seguintes: que se esquece de considerar o lugar da ideologia (Althusser queria criar uma teoria geral das ideologias); que as relações sociais são transformadas por uma prática política "já-lá" (parece que sempre foi assim, sem origem definida); e que o lugar em que acontece essa transformação da prática política é no discurso (ainda não definido, nesse artigo, como efeito de sentido entre locutores). 

Ademais, há uma constante em se observar os aspectos de ordem epistemológica pela crítica do modo em que se pensava e se realizava ciência na época.

Mais do que isso, naquele momento as ciências humanas em geral estavam encantadas com o boom que vinha sendo, até então, a onda do estruturalismo. Essa corrente científica foi inaugurada por Saussure, o pai da linguística, e considera que tudo pode ser formalizado em sistemas lógicos. Por definição de Saussure, a língua seria um sistema de signos. Para tanto, era necessário fazer um corte: manter o que era regular e deixar de lado as irregularidades. Daí a distinção entre língua e fala ao se pensar um estudo de linguagem. A língua poderia ser estruturada e estudada. Já a fala, como particularidade de um sujeito, foi deixada de lado nesse primeiro momento de se formalizarem os estudos de linguagem.

Pêcheux, atento leitor de Saussure (o autor é frequentemente citado no texto da AAD-69), então promove essa ideia de ir contrário a esse pensamento reducionista do estruturalismo e de olhar para o que havia então sido deixado de lado. Pois o que havia à época eram estudos encerrados no texto, fechados em si mesmos, geralmente com a ideia de "o que o autor quis dizer?", desconsiderando aspectos exteriores à produção desse texto. E isso se daria a partir de um extenso componente teórico, o que pode dar a impressão à primeira vista de estudantes de letras e de linguística de que a AD é difícil de entender. 

Comentário pessoal: existe um ponto de verdade nisso, em parecer difícil, afinal a AD se compõe como disciplina de entremeio entre a linguística, a psicanálise e o materialismo histórico. Então, estudar AD significa ter conhecimento dessas três áreas. Entretanto, quando se pega o jeito da coisa, as leituras ficam mais fáceis porque, tendo os conceitos sedimentados a partir de leituras e discussões, já se consegue fazer as associações com mais facilidade. A curva de aprendizado, na minha percepção, é sim longa, mas não impossível.

O segundo texto pré-AAD-69 é o "Observações para uma teoria geral das ideologias" (1967), publicado no Brasil em 1995 na primeira edição da Revista RUA, do Laboratório de Estudos Urbanos da Unicamp (Labeurb), e pode ser encontrado aqui em PDF. Neste artigo, Pêcheux/Herbert continua a pensar acerca de ideologias e da constituição de ciência, em particular, no que diz respeito às ciências sociais que se fazia à época. O mérito do texto é trazer o alicerce de um conceito que será resgatado com frequência no futuro (e que são válidos ainda hoje), o de que a ideologia interpela os indivíduos em sujeitos. 

Discurso: efeito de sentido entre locutores.
Também, o autor lança as bases para falar de esquecimento, conceito a ser desenvolvido no texto da AAD-69, em que o locutor tem a impressão (falsa) de ser origem de seu dizer, bem como de efeito metafórico, como aquilo que, por deslocamento, produz significações. Por exemplo, falar sobre aumento salarial do ponto de vista dos trabalhadores e dos patrões têm significações completamente diferentes, apesar de tratar de uma mesma ideia.

Ainda, seguindo a lógica de crítica epistemológica, Pêcheux propõe que "toda ciência é, antes de tudo, a ciência da ideologia com a qual rompe". E era essa mesma a proposta do autor, de "abrir uma fissura teórica e científica no campo das ciências sociais, e, em particular, da psicologia social" (HENRY, 2010, p. 12). Isso se torna evidente a partir das constantes retomadas acerca do tema da ideologia e, posteriormente, de pensar um sujeito que não é dono da origem de seu dizer (conceito retomado da psicanálise, de o sujeito ser dividido, clivado). Dessa forma,


"[...] por  Freud  sabemos  que  o  sujeito  não  é  onde  se  pensa,  pois  sua  consciência  está  descentrada  pelo  inconsciente;  por  Marx,  que  o  sujeito  não  age  onde  tenciona,  pois  suas  intenções  estão  descentradas  pela  ideologia  (o  Outro da história, como diz Eni Orlandi); por Pêcheux, que isso se dá em e através dos mecanismos lingüísticos que sustentam o discurso. Pêcheux desloca assim a dicotomia  língua/fala  para  a  relação,  não  dicotômica,  língua/discurso" (ALCALÁ, 2003).

Até por essa questão da fissura, Paul Henry, neste mesmo texto citado que abre o livro Por Uma Análise Automática do Discurso, considera que Pêcheux, com a AAD-69, introduziu um cavalo de Tróia nas ciências sociais. Mas tem uma questão como pano de fundo nisso tudo. Todas essas relações se dão na materialidade da linguagem.


E tal relação será marcada a partir do que se pode considerar como um texto fundador: a Análise Automática do Discurso, que será discutida na segunda parte desse texto, aqui.


Referências Bibliográficas

RODRÍGUEZ-ALCALÁ, Carolina. Em torno de observações para uma teoria geral das ideologias, de Thomas Herbert. Seminário de Estudos em Análise do Discurso (1. : 2003 : Porto Alegre, RS). Anais do I SEAD - Seminário de Estudos em Análise do Discurso [recurso eletrônico] – Porto Alegre : UFRGS , 2003. Disponível em:<http://www.ufrgs.br/analisedodiscurso/anaisdosead/1SEAD/Paineis/CarolinaRodriguezAlcala.pdf>. Acesso em: 16 fev. 2020.

HENRY, Paul. Os fundamentos teóticos da "análise automática do discurso" de Michel Pêcheux. In: GADET, Françoise; HAK, Tony. Por Uma Análise Automática do Discurso. 4. ed. Campinas: Editora Unicamp, 2010. Cap. 1. p. 11-38.

HERBERT, Thomas. Reflexões sobre a situação teórica das ciências sociais e, especialmente, da psicologia social. In: Análise do Discurso: Michel Pêcheux. Campinas: Pontes, 2011. p. 21-54.

HERBERT, Thomas. Observações para uma teoria geral das ideologias. Revista Rua. Campinas, Vol. 1, 1995. p. 63-89.

PÊCHEUX, Michel. Análise Automática do Discurso. Campinas: Pontes, 2019.
GADET, Françoise; HAK, Tony. Por Uma Análise Automática do Discurso. 4. ed. Campinas: Editora Unicamp, 2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário